FIC Redenção - Faculdade Integrada Carajás

Publicado em 11/03/2016

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Mulheres a partir dos 60 anos recomeçam suas vidas redescobrindo a importância de aprender

Mulheres a partir dos 60 anos recomeçam suas vidas redescobrindo a importância de aprender

Na Goiânia dos tempos de criança da dona de casa Jovenilha Maria Xisto, 60 anos, as crianças eram obrigadas a trabalhar. “Ou ia para a roça ou não comia”, ela conta. Para as meninas, lápis e caderno ficavam ainda mais distantes. “Naquela época era muito triste, a gente não podia estudar, pra não escrever carta pros namorados”, resgata, com o olhar de quem ainda não consegue entender a injustiça.

A primeira escola que Jovenilha pôde chamar de sua foi o Centro Educacional 2 do Cruzeiro Novo, em Brasília. Por iniciativa própria, “sozinha mesmo”, como frisou, um dia ela decidiu entrar no colégio por onde sempre passava, e se matricular. Chegou apenas assinando o nome, lendo “nada, nada”, e saiu aluna da turma inicial do primeiro segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Na noite da última quinta-feira, 3, na primeira semana do ano letivo de 2016 na rede pública do DF, Jovenilha mostrava, orgulhosa, o caderno que abrigou as primeiras lições de caligrafia e que vai seguir dando espaço aos desafios da segunda série. “Já estou aprendendo, já passei de ano. Está difícil, mas eu vou conseguir”, diz a mulher que, depois de ter sua força testada na criação solitária dos dois filhos, precisou superar a idade para realizar o grande sonho da vida: estudar.

Sonho assumido por Maria da Luz Melo de Menezes, 74, poucos meses atrás. Viúva, mãe de cinco filhos “criados e casados”, ela se viu sozinha em casa, após uma vida inteira dedicada a cuidar da família. Uma vida em que não sobrava tempo nem disposição para retomar a educação formal interrompida com o casamento, que veio cedo. “Há 62 anos eu não estudava. Então eu pensei assim: ‘acho que tá na hora de estudar um pouco pra me relembrar. Se é de estar deitada, assistindo novela... não, vou estudar’. Aí me deu aquela vontade muito, muito grande”, conta Maria da Luz, alagoana de Santana do Ipanema que vive em Brasília há 54 anos. 

Raimunda Rodrigues de Morais, 60, se inspira na filha, Fernanda, para ser mais uma da família a “tomar o caminho da Universidade de Brasília”. Outra que casou cedo e teve de se dedicar a ser somente dona de casa e mãe, ela precisou parar os estudos na quinta série. Ficou com o pouco que sabia, o suficiente para o marido, e não realizou o sonho de ser advogada “para ajudar os outros”.

“É muito importante a mulher ter estudo, sempre pensei nisso. Não pude ensinar os meus filhos. Foi muito ruim pra mim, não gosto nem de lembrar, porque queria ensinar os meus filhos e eu não podia”, recorda-se a mulher alegre que só se entristece quando lembra da falta que a educação lhe fez. Hoje na terceira série do primeiro segmento da EJA, ela é colega de turma da animada Maria da Luz e, vizinha de Jovenilha, adora fazer as lições de casa junto com a amiga. 

Sessenta – Jovenilha, Maria da Luz e Raimunda são três das milhares de brasileiras com 60 anos ou mais que têm (re)descoberto a escola – e, às vezes, a própria vida – por meio da Educação de Jovens e Adultos. Das 92.392 pessoas dessa faixa etária que voltaram a ser inseridas na educação básica pela EJA, mais de 57 mil são mulheres, segundo o Censo Escolar de 2014.

Uma maioria que, de acordo com Marcos Maia Antunes, coordenador geral da EJA no Ministério da Educação, não se repete entre as faixas etárias mais baixas que essa modalidade de ensino engloba (a partir dos 15 anos). E que revela, entre outras coisas, um problema herdado de décadas passadas, quando “os sistemas ou redes de educação eram outros e a abrangência era menor”. Ele lembra que se hoje há a quase totalidade de pessoas de 7 a 14 anos estudando, tempos atrás o cenário diferia muito.

A professora Cláudia Pereira Vianna, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), confirma o problema com os dados do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta um crescente número de mulheres não instruídas ou com instrução incompleta quanto maior é a faixa etária. Tendência contrária no caso dos homens.

“Você tem políticas públicas de educação que vêm focando na igualdade, na equidade, e elas são recentes. Portanto, não é à toa que, quanto mais baixa a faixa etária, mais sujeitos dessas políticas públicas essas meninas são. E o contrário também é verdadeiro”, analisa a pesquisadora de políticas públicas da educação.

Assim se dá o diálogo entre o número de alunas com 60 ou mais na EJA e o estudo Estatísticas de gênero: uma análise dos resultados do censo demográfico 2010, do IBGE, publicado em 2014. A pesquisa anuncia maioria de analfabetos com 60 anos ou mais entre as mulheres (27,4%, enquanto o índice é de pouco mais de 24% na população masculina dessa faixa etária). 

Escolarização – Entre os fatores que explicam esse contingente de mulheres analfabetas, ou acima de 60 anos que ainda não completaram a educação básica, Cláudia Vianna aponta três problemas. O fato dessas mulheres ainda trabalharem ou se disporem a ficar em casa com os netos para garantir que as filhas trabalhem, o que lhes toma tempo, é o primeiro. O segundo, diz ela, está no chamado “preconceito de ciclo de vida”, o olhar torto com que muitos idosos têm de lidar quando voltam a estudar, e que se torna ainda mais forte relacionado ao gênero feminino.

 “O modelo patriarcal vem restringindo o acesso da mulher à escolarização há mais de um século. E ele persiste. Apesar de todos os avanços de algumas políticas públicas educacionais, ainda tem pedras no caminho”, explica a professora.

O sexismo, ou a exclusão de gênero, é outro obstáculo, conforme a pesquisadora. Ainda hoje, muitas mulheres continuam sendo impedidas de estudar por seus maridos. Nesse contexto, a EJA ganha ainda mais importância por ser uma segunda oportunidade que, aliada a outras políticas públicas, pode significar a garantia plena do direito dessas mulheres à educação. “No melhor dos mundos, que bom seria se ela não precisasse existir”, comenta Vianna. 

Conquistas – Professora da EJA há 15 anos, Ilma Gláucia Reis Fortunato sabe o quanto a modalidade ainda é necessária e importante, inclusive para quem está ali para ensinar. “É um estímulo pra gente, como mulher, incentivá-las a abrir caminhos. Porque pela educação elas estão abrindo portas”, reflete.

Para quem retornou à escola após tanto tempo e tantas dificuldades, o sabor é de conquista. A cada letra desenhada com esmero, a cada soma acertada, em cada dia em que o compromisso da noite é estudar. Jovenilha, que antes se sentia cega pela rua, sem conseguir ler o que diziam as placas, hoje experimenta o sabor da liberdade. Maria da Luz é só felicidade e vitalidade depois das aulas. Raimunda tem certeza de que, agora, concluindo os estudos para fazer enfermagem ou direito, poderá ajudar as pessoas.

Fonte: http://goo.gl/4C5hjP 

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